Moralidade BDSM vs "dança das coleiras"
vou aqui transpor um texto que recebi por um grupo BDSM brasileiro, que me pareçe relevante...
como o grupo é publico, e portanto todos podem ver este artigo, não sinto haver problemas em o colocar aqui.. no entanto vou ocultar o nick da autora.
Mesmo estando bastante afastada das listas por conta de uma série de mudanças na minha vida profissional, gostaria de expor a minha opinião sobre um tema que circulou aqui na BDSM_SP recentemente.
Um tema delicado e normalmente abordado por um viés moralista e, algumas vezes, até romântico, e que me concerne diretamente: o “troca-troca de coleiras”, ou a “dança das coleiras”, como preferirem (duas expressões, de antemão, extremamente pejorativas, diga-se de passagem). Eu, na qualidade de submissa que recentemente entregou a coleira e que, antes disso, já tinha sido encoleirada por outros quatro Dominadores, sendo que um deles me encoleirou por mais de uma vez, me sinto diretamente concernida pelo assunto em questão e gostaria de dar minha opinião sobre o tema e sobre as opiniões dadas sobre o tema. E, para chegar onde pretendo, gostaria de relatar, brevemente, algo que me aconteceu:
Há pouco mais de um ano, num domingo, sofri um acidente doméstico que me obrigou a ir até ao hospital. Tentava desemperrar uma porta de correr, quando o trilho superior, de ferro, caiu sobre meu pé. Muito sangue, muita dor – daquelas que deixam tudo leitoso e silencioso na mente. E lá fui eu, sozinha, ao hospital, mancando, com gelo e um tufo enorme de algodão sobre o dedo cortado, que ainda sangrava, cara vermelha de chorar.
Depois de ter falado com uma enfermeira, com uma médica que comentou sobre a sutura que fariam em meu dedo, e de ter tirado a radiografia que acusou a fratura, fui, finalmente, recebida por um médico ortopedista. Ele, atrás da mesa, me fazia perguntas sobre o que tinha acontecido, eu brincava com a situação, como é de eu temperamento, quando, num dado momento, tive a impressão de que ele me olhava de um modo diferente. Ri comigo mesma e concluí que a dor deveria estar me fazendo delirar.
E a consulta continuou. Ao final, ele me olhou e disse: - Agora, você vai para a sala de curativos e me aguarda lá, que eu vou suturar seu dedo. E eu, espantada, com uma expressão estranha, como uma criança que fala alto o que pensa: - Como? O “Senhor” vai suturar meu dedo? Ele, com um ar bravo, muito sério, me olhando firmemente nos olhos: - Por quê??? A mocinha não quer que eu suture o dedo dela? Não acha que sou bom o suficiente para isso? Eu, já gaguejante, com a boca seca: - Não, Senhor, por favor, não é isso... É que eu pensei que... _ Ou prefere que o técnico suture seu dedo? Hem? - Não, por favor, Doutor. É que eu achei que fosse a médica que... E com uma expressão reconhecidamente sádica: - Posso ficar ao lado, vendo-o costurar você errado. O que acha? - Perdão, Doutor. Não foi isso que eu ...
E antes que eu tentasse me explicar, ele começou a rir de modo debochado e me mandou para a sala de curativos. Na sala, todo sério, campo cirúrgico aberto, o tal técnico presente, todo o circo armado, tenho novamente a impressão de que ele me olha de um modo diferente. Mas, agora, sei que não deliro. Ele, já com a seringa da anestesia na mão, mira o corte, me olha novamente daquele jeito e diz, de um modo doce: - Vai doer bastante... - Não faz mal, Doutor. Eu agüento. Ele sorri e me aplica a injeção no corte fundo. Quase me derreti de tesão com a picada e, em seguida, com o peso imenso assumido pelo meu dedo. Cada gesto dele, costurando minha carne, minuciosamente observado por mim, era de uma beleza ímpar.
Naquele momento, eu estava derretida, entregue, encantada e, se ele quisesse, ele, ali mesmo, teria me cortado e me costurado quantas vezes lhe parecessem necessárias. Terminado o procedimento, passando ao meu lado, ele me olhou sorrindo, deu um leve tapa em minha perna e disse; - Depois, a menina volta para vermos como isso está, ok? - Sim, Senhor. Mas era domingo, dia de plantão, e as consultas eram dia de semana. Feliz ou infelizmente, nunca mais o vi.
O que esta história tem a ver com o tema? Para mim, tudo. Neste dia, eu me dei conta de algo que já desconfiava. De que a submissão independe do Dominador. Uma submissa de essência, segundo meu ponto de vista, e me perdoem os mais românticos e, sobretudo, os moralistas, é submissa a todo aquele que souber, ao mesmo tempo, lhe falar à alma e à buceta. E não apenas a UM Dominador em específico. Uma submissa de essência se submete, antes de tudo, à Dominação - antes mesmo de se submeter ao Dominador.
Ousaria dizer que existem dois tipos de submissão (e talvez também de Dominação): . a submissão por vocação (a de essência); . e a submissão por concessão. O funcionamento da submissão por concessão, normalmente ligada à paixão por um ser em especial, seria o seguinte: “Faço tudo o que faço, me submeto a tudo o que me submeto, porque adoro o Senhor, porque só o Senhor me faz fazer isso tudo”. E, como toda concessão, evidentemente, nas entrelinhas pulsa a proposta de troca: “e, por isso, em troca, eu exijo a, b, c...” Seria uma dominação às avessas e, se não bem conduzida, uma sutil manipulação. Uma submissão restrita a um estado emocional, a uma fase, a um parceiro em específico. As submissas por vocação, por outro lado, que sempre o foram e sempre o serão, independentemente de quem estejam servindo, se vergam, sem vergonha alguma, se dobram, sem pudores, se entregam intensamente, sem se preocuparem com o julgamento alheio, a todo verdadeiro Dominador – também por vocação, obviamente. Por isso nos chamam “cadelas”, aliás. Como boas cadelas, sabemos perfeitamente reconhecer a mão que sabe nos tratar como tal e sempre lhe lambemos os dedos, ávidas - a não ser, evidentemente, que estejamos encoleiradas, devidamente bem tratadas como cadelas que somos e, de preferência, com guia cerrada e curta...
Uma submissa por vocação não pertence, portanto, a um Dominador, mas à Dominação que um Dominador possa lhe impor. Daí o fato, aparentemente tão condenável por tantos, de uma submissa de vocação ter, normalmente, em sua vida ativa, várias coleiras. Ora, o que li em algumas respostas, de que subs que trocam de coleira seriam pessoas despreparadas, imaturas, que não se enxergariam fundo etc. me chama realmente a atenção. Primeiro, porque quem decide encoleirar uma sub, quero lhes lembrar, é um Dominador – uma sub de vocação nunca pede coleira. Logo, o fato de uma submissa ter tido várias coleiras significa, no mínimo, que ela teve a honra de ser publicamente reconhecida como submissa o suficiente para ostentar a marca de um Dominador, pois a coleira não expõe só a sub, mas também o Dom. Significa que ela se mostrou digna de ser publicamente marcada. E se uma sub que teve outras coleiras, continua sendo encoleirada é, também, no mínimo, porque honrou as coleiras que portou anteriormente, sobretudo porque a coleira, e todos sabem disso, é um reconhecimento ao qual nem todas as submissas, a despeito do tempo que possam servir a um Dominador, têm acesso.
Depois que, como tudo na vida, uma relação SM, sinto dizer, um dia também acaba e nunca, jamais, em tempo algum e por ninguém, poderá ser julgada pelo tempo de vida útil. Só faltava, agora, instituir bodas de papelão, de cobre, de prata e de ouro para relações SM. E por que razões acaba e de que modo acaba é algo que diz respeito unicamente a quem dela participou. Algumas subs, normalmente as de vocação, não estão no SM para, como se diz lá no Norte, “passar uma chuva” ou para arranjar namorado/marido. Nós, subs de vocação, vivemos o SM como orientação exclusiva e, portanto, vivemos todas as suas alegrias e vicissitudes: do encontro, do prazer pleno, da entrega intensa, até o rompimento. É evidente que todos buscamos uma certa estabilidade, mas manter uma falsa estabilidade, por respeito às “aparências” e com medo do olhar do outro, jamais.
As submissas por vocação o são porque, antes de se sujeitarem a um homem, se sujeitam ao seu próprio Desejo (em maiúscula, com a devida licença de J. Lacan). E o Desejo é deliciosamente torto, amoral, algumas vezes “sujo”... Ele desconhece o enquadramento social, ele despreza mandamentos de grupos ou de religiões, ele abomina os vomitadores de regras de todo tipo. Eu, xpto, sou uma submissa de vocação, como tantas outras aqui (talvez nem tantas assim). Já ostentei e honrei cinco coleiras e ostentarei e honrarei tantas quantas a vida SM me presentear, de todos aqueles que eu tiver o prazer e a honra de servir e que me considerarem digna para tal.
Se for apenas mais um, ótimo, terei encontrado o que tanto busco.
Se forem mais de um, é porque minha busca deverá seguir por um caminho mais longo.
Portanto, julgamentos de leviana, perdida, despreparada, imatura ou qualquer coisa do tipo cabem bem, sim, lá na espera do salão de beleza, onde um bando de mulheres se reúne para se horrorizar, em grupo, diante do anúncio de cada novo namorado da deliciosa Deborah Secco.
Aqui, sorry, é inaceitável. xpto - cadela, com orgulho.
aguardo comentários:)

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